quinta-feira, 13 de setembro de 2012

SID WATKINS, R.I.P.


Anjos do Asfalto

Morreu ontem aos 84 anos o Dr. Sid Watkins, meu ex patrão na Formula 1.  Quando ele me convidou para pilotar o Medical Car da Formula 1, nunca imaginei que isso me tornaria o homem certo, no lugar certo e na hora certa para uma missão tão sob medida, específica e única: De vítima em potencial de um esporte que matava um piloto a cada 10 acidentes, passei a fazer parte do "time dos anjos da guarda " da F1 sob o comando do Prof. Watkins. Ao volante do Medical Car eu poderia levar salvação para o corpo e alma dos que ganham a vida no fio da navalha em um contexto divorciado dos valores do Reino de Deus.   

Foram três anos com três volantes na mão: o de Atletas de Cristo, o da Coalizão Internacional dos Ministérios Esportivos e o da Mercedes C55T em todos os GPs de F1. Fiquei exausto de dar tantas voltas ao mundo mas valeu a pena porque aprendi a argumentar a lógica da minha fé e com uma audiência sarcástica e muito esperta. Um tipo de gente que não se encontra dentro das igrejas, como os dois dessa reportagem de uma revista especializada:
Bernie Ecclestone perguntou ao Prof. Watkins:
-  Porque o Alex aceitou fazer esse trabalho sem ganhar um tostão?  
- Porque ele tem esperança de me converter ao cristianismo.
- Então dá um contrato de 10 anos para ele. Aposto que antes do fim do contrato, o Alex vai estar fumando charutos e bebendo Whisky e você não terá tomado jeito...
A cada fim de semana de Grande Premio eu passava quase onze horas no Medical Car em treinos, classificações e corridas de F1 e preliminares. Convivendo tanto tempo com gente tão inteligente, instruída e de senso de humor apurado, aprendi muito sobre medicina, primeiros socorros, politica e como a vida pode ser melhor se não a levarmos muito a sério...
Considerado um dos melhores neurocirurgiões do mundo e também catedrático no assunto, Sid criou um brilhante sistema de atendimento de urgência aos pilotos . Seu desempenho nessa área foi tão eficaz que o nomearam presidente do comitê de segurança da F1.
Bernie Ecclestone deu-lhe carta branca e força politica para exigir a construção de centros médicos equipados com heliportos, helicópteros e equipes médicas especializadas em resgate em todas as pistas. Exigir a construção de carros e circuitos mais seguros. Introduzir o Medical Car rápido para atender pilotos com parada cárdio respiratória antes da ocorrência da morte cerebral. E a contratação de quem ele quisesse para sua equipe. Incluindo eu.  
Como resultado a F1, que matava mais de um piloto por ano, reduziu drasticamente o número de mortes tornando-se o esporte de risco mais seguro do mundo. Desde a tragédia de Ayrton em 1994 até hoje, nenhum piloto morreu na F1.
Graças a um neurocirurgião que encontrou o significado de sua existência quebrando paradigmas de padrões de segurança e entrou para a história salvando  vidas não só de pilotos mas de milhares de cidadãos em todo o mundo através de dispositivos de segurança desenvolvidos nas pistas e incorporados aos carros de rua.
Vinte anos mais velho que eu, Sid costumava apresentar-me a seus convidados como seu filho e confessou em um de seus livros que era um agnóstico convicto mas se alguém algum dia fosse capaz de convertê-lo ao cristianismo esse alguém seria Alex Ribeiro. O melhor que aprendi com ele foi a arte de envelhecer bem e o significado que encontrou para sua vida.   
Juntos participamos de 48 largadas fechando o grid de 48 GPs ao volante de um carro fantástico que levava a bordo a equipe médica mais rápida do mundo. Os resgates mais dramáticos foram: Michael Schumacher em Silverstone, Luciano Burti em SPA, Pedro Paulo Diniz em Hockenheim, Henrique Bernoldi em Interlagos, quando Nick Heidfeld arrancou a porta do Medical Car e quase me levou junto. E Monza onde a roda solta de um dos oito carros envolvidos em um  acidente na primeira volta atingiu um bombeiro que morreu em nossas mãos enquanto tentávamos salvá-lo.   .
Paralelamente a minhas funções de ministro do evangelho e burocrata do esporte, Deus me permitiu voltar a pilotar. Esse tempo de grande fluxo de adrenalina e alegria foi uma dádiva de grande valor para a cura dos traumas do coração com o fechamento de um ciclo aberto em meu passado, através de um sepultamento decente para minha carreira. Esse processo agregou um significado extraordinário à minha existência, uma enorme gratidão a Deus e a uma das pessoas mais extraordinária que já conheci: O Professor Sid Watkins.

 Alex Dias Ribeiro

Texto extraído de seu livro Sucesso e Significado

N. DA R.: FAÇO MINHAS AS BELAS PALAVRAS DE ALEX.

6 comentários:

Antonio Seabra disse...

Sensacional Mahar !!!!

Nícolas Borges disse...

Lindo e emocionante texto!
Mestre, parabéns por tê-lo publicado aqui.
Grande abraço!

Egberto disse...

Grande Texto, Grandes Personagens.
Emocionante

Sidney Cardoso disse...

Grande Alex
Como sempre consegue passar para o papel seus pensamentos que são bem claros.

Sinto-me orgulhoso de tê-lo como amigo desde 1967 e um pouco pesaroso por termos perdido o Dr. Dr. Sid Watkins. Este também tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente quando trabalhava na Torre da F1 em Jacarepaguá.Dr.Sid Watkins sempre ia lá em cima conversar com a turma e sempre foi muito atencioso e simpático.

Belo texto e bela dupla: dois seres humanos maravilhosos que não partilhavam da mesma crença, porém sabiam respeitar suas diferenças.

São de pessoas assim tolerantes que estamos precisando para haver mais paz nesse mundo meio conturbado.

Ney Marcelo Urbano disse...

Quando vi o link para este texto no blog do FG sabia que ia encontrar alguma coisa emocionante.parabéns Alex! Que bela homenagem ao Professor!

Ney Marcelo Urbano

Ney Marcelo Urbano disse...

Quando vi o link para este texto no blog do FG sabia que ia encontrar alguma coisa emocionante.parabéns Alex! Que bela homenagem ao Professor!

Ney Marcelo Urbano