terça-feira, 2 de agosto de 2016

Lince 4100

No Recife surgiu um carro de sabor muito especial

As linhas dianteiras são mais rebaixadas que as do Opala
A equipe da Decorauto, liderara por Carlos Alberto Correia, bolou um carro simples e prático, com um funcionamento bastante bom. Para isso o processo básico parte de um Opala cupê de qualquer ano, que esteja com a estrutura básica em bom estado. Desse carro são aproveitados o assoalho do monobloco, os eixos, os para-lamas internos, a parede de fogo com o para-brisa e as estruturas internas das portas, bem como seus encaixes. Daí pra frente o assoalho é encurtado no entre-eixos em 20 cm e mais 15 cm no porta malas. É feita então uma carroceria externa de fibra após o corte da capota. Esse conjunto substitui a frente, as portas e a mala por superfícies cujo desenho se aproxima de certos estrelados carros alemães, como também dos novos conversíveis Chrysler americanos recentes.
A linha é discreta e evita cair em rebuscamentos inúteis, produzindo um veículo de aparência harmoniosa. A alguns parece que o Lince tem pouca massa visual na traseira, o que influi na distribuição de peso e mesmo no seu total, como veremos mais adiante.

O interior é original do Opala, com exceção de um visor acima dos aeradores centrais do painel, que lembra o motorista para checar o funcionamento de vários sistemas e condições do veículo antes de partir. A verdade é que essa instalação muda o suficiente o painel para que ele pareça diferente do original. Também contribui para esse efeito o uso de materiais e tecidos diferentes no interior, criando um clima aconchegante mas preservando o espaço interno do Opala, com a subtração do banco traseiro. Ali fica um vão entre os bancos e o alojamento da capota conversível.

A traseira do Lince é encurtada 15 centímetros
Essa capota merece aplausos de pé! Nossa experiência com carros conversíveis ensinou que nem sempre é fácil e rápido levantar a capota de vários carros. Mesmo em veículos de fábricas famosas são necessárias duas pessoas com disposição para fechar a capota. E o pior é que fechar é modo de dizer, já que a chuva muitas vezes é das coisas da vida em um carro desses.

A capota do Lince dá de pau em criações muito mais caras e sofisticadas feitas aqui. Para fechá-la é bastante pegá-la com a mão direita e puxá-la até que encoste no pára-brisa. Há uma ordem para fechar os trincos de segurança, mas não há dificuldade alguma mesmo para pessoas de menor porte físico. E fechada a capota você realmente está abrigado. Mesmo num carro com dois anos de uso, pegamos uma chuva forte e o deixamos estacionado; a única água que entrou foi ao abri-lo na volta. Totalmente estanque. É realmente de pasmar, pois capota é coisa difícil de fazer.

Essa mesma engenhosidade permeia todo o carro. Por exemplo: o uso de quase todo o Opala permite que só haja a árvore de transmissão encurtada fora da especificação original. Isso torna possível obter assistência GM em qualquer lugar. Para manter o monobloco mais rígido possível foi aproveitada toda a estrutura da parede de fogo e do pára-brisas, que também é de linha. As lanternas traseiras são de Corcel II e os faróis de Passat, não criando dificuldades de substituição. Só as rodas é que são um design exclusivo da Decorauto, sendo por ela fornecidas.

O painel do Lince com o check control e o volante especial

ANDANDO COM O BICHO


O Lince que analisamos era um automático 250-S a gasolina com cerca de 35.000 quilômetros, já que o Carlinhos queria que soubéssemos como o carro dele sobrevive ao tempo. E concordamos: o conversível vermelho estava bastante bonito por fora. A pedido nosso, levantou-se a roda dianteira direita do chão e ambas as portas se abriram e fecharam sem problemas, graças às estruturas de reforço do assoalho colocadas pela fábrica.

O acabamento é bom, não havendo folgas irregulares entre as portas, para-lamas e tampas. Desnecessário aqui uma análise ergonômica, pois bancos, pedais, câmbio e volante são idênticos aos dos Opala e, se você cabe em um, caberá do mesmo jeito em outro. O mesmo se aplica quanto à visão para fora.

Agora o feeling, o sabor do carro, é outra praia. O Lince tem um gosto agridoce e excitante que definitivamente o Opala não tem, mesmo respeitadas todas suas qualidades, que não são poucas.

A capota erguida; a parte virada para cima é de fibra e rígida
Começa até pelo som do motor que se percebe dentro do carro. A fibra de vidro tem qualidades acústicas diferentes do aço e o barulhinho de máquina de costura do Opala aqui vira um rosnado amordaçado bastante estimulante. Os duzentos e quarenta quilos a menos que o Opala são a razão do Lince largar a imobilidade com a disposição que ele demonstra. Todo Opala automático, mesmo o 250-S, custa um pouco a sair da imobilidade quando acelerado. O Lince não: numa competição hipotética com um Opala idêntico, de zero a trinta por hora, achamos que o Lince seja talvez 20% mais rápido.

Pensando como esse peso a menos iria influir no carro fomos até o centro do Recife, onde, no paralelepípedos e calçamentos irregulares, não houve gemidos, chiados e barulhos. Então já ambientador com o Lince e seu acelerador de pulo instantâneo, descobrimos que mesmo com a nova geometria de direção hidráulica GM, que limita o jogo ou aumenta o diâmetro de giro, o entre-eixos menor do Lince melhora muito a sua maneabilidade, dando-lhe uma nítida esportividade de comandos.

A frente do carro, bastante agressiva, com faróis do Passat
O ponto crucial de todo conversível é a estabilidade e/ou aderência. A ausência da capota, como que fechando o monobloco, faz com que as extremidades do veículo tendam a se mover em movimentos de flexão longitudinal ao carro. Esse fenômeno estará presente em qualquer carro aberto, mas será menor em veículos com chassi separado, como jipe Engesa, e mais forte em monoblocos, principalmente os fechados com capota. Para amenizar o efeito dessa torção procura-se reforçar o assoalho do carro com tubos soldados, a fim de, principalmente, manter constantes a atitude e o contato das rodas com o chão. Do Lince podemos dizer que existem vibrações, principalmente causadas por falhas no asfalto apanhadas em velocidade.

Nesses impactos pequenos e bruscos o monobloco flete ligeiramente junto com o trabalho de suspensão. Já os impactos de baixa frequência são enfrentados com pulso firme e sem hesitações. O Lince é estável em velocidade. Pudemos comprovar isto na estrada costeira que leva ao local das fotos, a fazenda da Gavoa, onde há um hotel de cinema. Nessa estrada de pista dupla, asfalto quase sempre liso e sem tráfego, asfalto quase sempre liso e sem tráfego, exigimos forte do Lince e ele devorou sem problemas as curvas de alta, mantendo atitude estável e denotando bom trabalho da fábrica nas suspensões. As curvas de média e baixa são cumpridas como num Opala bem acertado e firme no chão. Infelizmente não é possível fazer milagres com o pesado eixo traseiro GM e, se houver costelas nas curvas, ele vai soltar, ainda que bem menos que o Opala, graças à sua traseira mais leve.

Essa mesma traseira mais leve deixou certas dúvidas quanto ao controle em frenagem máxima. Imaginamos travadas autológicas de traseira e , perguntado, Carlinhos explicou que sendo mais leve, o Lince não precisa de freio tão potente quanto o do Opala, dando oportunidade a reduzir o tamanho das lonas traseiras para manter o balanço original e mantendo os discos originais. Tivemos oportunidades de plantar o pé no freio em um trecho deserto e, realmente, o Lince freia tão bem ou melhor que o Opala. O ponto de travagem é fácil de controlar e quem trava são as rodas dianteiras no final, mantendo, no seco, a estabilidade direcional perfeita, sem rabeadas inoportunas.

Com a capota fechada o estilo não chega a ser comprometido
No piso molhado é bom manter um certo respeito, como todo carro rápido merece. Desde que não seja ultrapassado o limite de aderência dos bons P.44 que equipavam o carro que usamos, tudo vai tranquilo. Até para frear o controle é mantido.

Em suma, o Lince é um carro bonito, confortável, espaçoso e, principalmente para nós, aficcionados, nitidamente rápido e controlável.

Tendemos a não acreditar em pequenos fabricantes "melhorando" os produtos superestudados das grandes montadoras. Esse conceito foi contradito pelo engenho e arte de Carlinhos é da Decorauto. Eles fizeram um carro gostoso de dirigir, rápido, sentido o vento fluir na pele e o último contato com a Natureza, na certeza de ser senhor e mestre de uma montaria da melhor qualidade.

O Lince é produzido sob encomenda, ao preço de Cz$ 140.000,00 a transformação. Para maiores informações, a Decorauto fica na avenida Antônio de Góis, 604, telefones (081) 326-8483 e 326-1503, Recife, Pernambuco.

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