terça-feira, 16 de agosto de 2016

Maratona movida a gasolina

Por Jason Vogel

Competidor Georges Teste, com o ciclomotor De Dion-Bouton

O lema “Mais rápido, mais alto, mais forte” por pouco não levou um adendo: “mais potente”. O automobilismo foi cogitado como esporte olímpico e fez parte da programação dos Jogos por uma única vez. Parte da Exposição Universal de Paris de 1900, a II edição das Olimpíadas teve peculiaridades jamais repetidas, como exibições de balonismo e uma prova de 200m com obstáculos sob a água. Incluiu, também, uma corrida de carros e de motocicletas.



Conta Jeroen Heijmans, pesquisador que se dedica ao tema das Olimpíadas, que um esporte tinha que atender a cinco critérios para ser considerado “olímpico” em 1900: permitir a entrada de participantes de todas as nações; não dar vantagem a qualquer atleta; estar aberto a pessoas de todas as idades, raças, regiões etc; não admitir profissionalização e, por fim, não se basear no uso de motores.

O último critério eliminaria as provas automobilísticas do evento criado pelo Barão Pierre de Coubertin, mas o fato é que os Jogos Paris-1900 foram palco para 16 competições de automóveis e motos. As principais fizeram parte da prova Paris-Toulouse-Paris, uma disputa de velocidade e resistência mecânica que pode ser comparada aos ralis atuais.

“Esses desafios bem poderiam ser considerados olímpicos, não fosse a cláusula sobre esportes motorizados. Assim, prefiro classificar tais eventos apenas como exibições”, escreveu Heijmans no artigo “Motorsport at the 1900 Paris Olympic Games”, publicado na edição de setembro de 2002 do “Journal of Olympic History”.

Alfred Velghe (pseudônimo de Alfred Levegh), o vencedor da prova, ao volante de um Mors, em 1899 - Foto: Coleção Jules Beau

Ainda que fizesse parte dos Jogos Paris-1900, a prova Paris-Toulouse-Paris foi organizada pelo Automóvel Clube da França. Carros e motocicletas existiam há não mais do que 15 anos (tomando-se como marco zero as invenções patenteadas por Gottlieb Daimler e Karl Benz) e ainda eram considerados excentricidades de gente rica. Para comprovar a confiabilidade dessas máquinas, desafios de longa quilometragem ganhavam força desde a última década do século XIX.

Com um percurso de 1.347km, em tempos de estradas sem asfalto, a Paris-Toulouse-Paris foi disputada ao longo de três dias, de 25 a 28 de julho (os Jogos Olímpicos, nessa época, duravam meses, e a edição de 1900 aconteceu entre maio e outubro daquele ano). Foi difícil para os organizadores conseguirem a permissão das autoridades para realizar a corrida, que só entrou na programação oficial poucos dias antes da largada.

A cada dia, era disputada uma etapa: Montgeron-Toulouse, depois Toulouse-Limoges e, por fim, Limoges-Montgeron (vale dizer que Montgeron é uma espécie de subúrbio a 20km do centro da capital francesa). Havia três categorias: automóveis, motocicletas e voiturettes — estes eram carrinhos leves com motores diminutos.

Medalha de ouro da prova

Quase todos os 78 inscritos para a prova eram franceses, com um ou outro britânico na lista. Apenas 55 largaram, em espaços de dez em dez minutos, e só 21 resistiriam até a bandeirada final.

Na primeira etapa, o piloto Alfred Velghe — sob o pseudônimo Levegh — dominou a categoria automóveis com seu potente Mors, capaz de manter médias acima de 65km/h, um espanto para a época. Aos 30 anos de idade, Levegh já era um veterano em provas de longa distância, sempre correndo com carros da marca francesa Mors, uma das primeiras a usar motores em V.

No encalço de Levegh vinha Pinson, que chegou a fazer os melhores tempos na segunda e na terceira etapa da prova, com seu Panhard & Levassor. Outro francês que provou seu valor foi Carl Voigt, que também corria com um Panhard & Levassor.

Ao cabo de três dias de prova, os organizadores começaram a destrinchar as medições dos 82 postos de controle, e só em 15 de agosto oficializaram o resultado: vitória para Levegh, que fez o percurso da prova em 20h50m, com uma vantagem de 20m44s sobre Pinson.

Logotipo da Mors, marca do carro vencedor

Georges Teste levou a melhor entre as motos (na verdade, pilotava um triciclo De Dion, que chegava a 60km/h), enquanto Louis Renault, fundador da marca que levava seu sobrenome, venceu na classe das voiturettes, pipocando pela França a uns 40km/h.

Como nos esportes olímpicos oficiais, a Paris-Toulouse-Paris deu medalhas de ouro prata e bronze aos melhores colocados em cada categoria. A diferença é que os organizadores também pagaram prêmios em dinheiro.

Piloto Pinson, no Panhard, ficou em 2º lugar

Alfred Velghe “Levegh”, único piloto de carros a ganhar medalha de ouro durante uma Olimpíada, morreu de câncer de garganta em 1904. Seu sobrenome adotivo seria mais lembrado na história do automobilismo por um acontecimento trágico: Pierre Levegh, sobrinho de Alfred, foi o protagonista do pior acidente da história das corridas, quando decolou com seu Mercedes nas 24 Horas de Le Mans de 1955 e caiu sobre o público, matando 84 pessoas.

Nos Jogos de Londres-1908, cogitou-se promover outras corridas de carros. A ideia não foi adiante e os únicos esportes motorizados que aconteceram foram provas com barcos. Desde então, a gasolina anda fora das Olimpíadas.

Corredor Carl Voight, 3º lugar, com Panhard & Levassor

Um comentário:

gtx disse...

este jason é olimpico ! nasser