segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

JASON VOGEL VIAJA....DE FENEMÊ


Trio parada dura



A vida estradeira numa viagem até Salvador em três Fenemês


Jason Vogel

VIDEO AQUI


Em marcha lenta, o motor Alfa Romeo a diesel, de 11 litros, soa como o arfar de um dragão descansando no fundo da caverna. Um pouco de acelerador e o som se transforma no rugido do leão da Metro. Daí para a frente, entram uma batida metálica na cadência de rabo de vira-lata feliz e, como ápice, o grave de um helicóptero Huey em rasante sobre acampamentos vietcongues. Viajar na boleia de um FNM é o caos e a glória. Nenhum outro caminhão tem tanta personalidade acústica — e isso vicia, como pude constatar ao longo de seis dias e 1.535 quilômetros de estrada, de Leopoldina, em Minas Gerais, até Salvador.

A ideia de formar um comboio com três Fenemês até a capital baiana foi de fãs da extinta marca. Osvaldo Strada fez a vida criando softwares para os maiores bancos do país mas, fazendo jus ao sobrenome, gosta mesmo é de estar ao volante dos FNM/Alfa Romeo. Coisas da genética, já que seu pai era caminhoneiro, ou melhor: "alfeiro" (é assim que se denominam os motoristas e adoradores dos veículos que eram fabricados em Xerém).
O MOTOR D-11.000

Eis que Osvaldo hoje tem uma frota de dez destes caminhões restaurados. Dois participaram da viagem a Salvador: o plataforma ano 1965, com cabine standard FNM (cor verde seda, a mais tradicional da marca), e o belo modelo 1961 com cabine Brasinca, verde escuro.

Fechando o trio da pesada, entrou um cavalinho mecânico ano 1964. É de Miklos Stammer, capitão de cargueiros da Marinha mercante e alfeiro nas horas vagas. Em criança, ele e o irmão Robert moravam no interior de São Paulo. Para chegarem à escola, tinham que pegar carona e acabaram estabelecendo um sistema de pontuações: carro valia menos, caminhão "comum" tinha nota intermediária e FNM levava o grau máximo pelo ronco.

A Osvaldo e Miklos se juntaram outros viajantes. O paranaense Ito Bir foi caminhoneiro profissional: começou a dirigir FNM aos 15 anos, acompanhando um irmão mais velho. Hoje, após 27 anos fora da ocupação, ainda consegue antever com espantosa precisão cada trecho da BR-116.

Zeca Reinert, que trabalha com recursos humanos, é filho de alfeiro e sabe tudo sobre a marca de Xerém. Dando suporte técnico, entrou Adalberto Teixeira Santos, o Beto. Ex-caseiro de Osvaldo, tomou gosto pela mecânica e hoje restaura os Fenemês da frota.

Miklos, Ito e Zeca partiram de Curitiba. Osvaldo e Beto, de São Paulo. Entrei no grupo em Leopoldina, numa parada técnica em 29 de janeiro.
PASSANDO MARCHAS COM AS DUAS MÃOS

FNM E GAITA SÓ TOCA QUEM SABE

No Brasinca, com Osvaldo ao volante, é hora de conhecer um pouco da máquina. Na transmissão, há uma caixa de câmbio convencional (de quatro marchas, com alavanca de curso impreciso), e uma de reduzida, o que dá um total de oito diferentes relações.

O câmbio não tem sincronizadores: o motorista que tenha ouvido e sensibilidade para passar a marcha no tempo (muitas vezes dispensando o pedal de embreagem).

Achou complicado? Tem mais... as duas caixas vão sendo usadas alternadamente. Na hora de passar de segunda marcha simples para a terceira reduzida, por exemplo, o motorista usa ambas as mãos para mover as duas alavancas ao mesmo tempo (uma no painel e outra no assoalho), em um movimento muito rápido para não largar o volante por muito tempo... De terceira simples para quarta reduzida, a mesma coisa. E, não esqueça: com ouvido ligado na rotação do motor para não arranhar — isso que é arte!

PAISAGEM QUE PASSA A 70 km/h

O roteiro é o da antiga BR-4 (a Rio-Bahia, hoje BR-116), uma das principais rotas usadas na década de 60. E lá foram os Fenemês deslizando em pista de mão dupla, mas com asfalto novinho, no Vale do Jequitinhonha.

Os assentos dos D-11.000 (vulgo Dê-onze) são estreitos, feitos na época em que ergonomia era frescura. Você acaba acostumando. Além do modelo padrão da Fábrica Nacional de Motores (chamado standard), havia a opção de comprar o caminhão com cabines de fabricantes independentes.

Imaginava que o caminhão seria um forno mas, qual o quê... com o pé, tanto motorista quanto o carona podem abrir janelinhas na dianteira e nas laterais da cabine, ventilando bem o ambiente.
A SUITE...

Na restauração, os caminhões de Osvaldo receberam direção hidráulica (oferecida pela Alfa a partir de 1966). Já o Miklos, muito xiita, manteve seu cavalo mecânico no "queixo duro", sem assistência.

Os motores Alfa Romeo usados nos D-11.000 são aspirados. Saíram em versões com potência entre 150 cv e 175 cv. Para se ter uma ideia, os modernos caminhões turbinados não raro passam dos 450 cv.

Mesmo vazios, os Fenemês têm velocidade de cruzeiro em torno dos 70k m/h. Passar disso, só surfando suavemente nas banguelinhas.

— Com 14 toneladas de carga, a coisa piorava bastante. A gente encarava subidas a 30 km/h. Os outros motoristas nos jogavam caixinhas de fósforo para a gente tocar fogo nos Fenemês — lembra Ito.

Daí um dos apelidos do FNM ser "Feio, nojento e mole". Outros chistes com a sigla eram "Feliz Natal, Manuel", "Favor não mexer" ou o fatalista "Fiquei na merda".


NÃO É SÓ CAMINHONEIRO QUE VIVE DE ESTRADA

À noite, é hora de procurar um posto com cara boa e descansar. Caminhoneiro tem direito a banho frio de graça. Se quiser o luxo da água quente, que pague R$ 3.

O kit básico a ser levado inclui chinelo (sabe-se lá o que há no chão do boxe) e papel higiênico. Há banheiros limpíssimos e outros sórdidos como os estábulos do rei Aúgias. O mistério é que nenhum tem cabide (sequer um prego) para pendurar a roupa.

Na Bahia, encontramos gente que mantém uma lavanderia 24 horas: a roupa suja deixada à noite está cheirosa e passada pela manhã. Tudo bem baratinho.

Carreteiro antigo tinha que ter habilidade culinária e fogareiro. Hoje, a maioria prefere os restaurantes dos postos: por R$ 12, há bufês ao esquema "tudo o que você conseguir comer". Daí tantos pançudos na estrada.

A conversa sempre cai em agruras. Um garoto que transporta chapas de cobre tem que andar com escolta. Conta sobre um roubo mirabolante, em que os bandidos se disfarçaram de seguranças e levaram a carga.


Outro, puxando 33 toneladas de gesso, quer largar o caminhão. Roda um mês inteiro, sem parar, para levar R$ 1.500 para casa:

— Nossa comissão hoje é de 13%. Hoje a carga boa vai para as grandes transportadoras.

Aos poucos, todos vão dormir. O silêncio é quebrado por um ou outro carro na estrada ou pelo gerador de um caminhão frigorífico (no kit caminhoneiro, leve tampões de ouvido). Acorda-se por volta das seis e, uma hora depois, o pátio já está vazio.

Na Bahia, o asfalto fica mais irregular. Começam a aparecer barraquinhas de palha — e o curioso é que cada lugarejo tem sua especialidade: em um, só há esteiras; noutro, colheres de pau; mais uns quilômetros e todo mundo vende berimbau. Depois, carrancas, burrinhos de barro... Milagres é a terra da buzina a ar. Há quem venda e quem afine. Depois, vêm os chapéus com chifres.

— É pro pessoal arreliar os amigos — explica o vendedor.

Após 1.535 km na boleia, chego a Salvador. Deixo o grupo e, em duas horas de avião, desfaço o percurso feito pelos Fenemês ao longo de seis dias.

Os três caminhões voltaram às suas bases sem maiores problemas. Por e-mail, Miklos avisa que chegou a Curitiba no dia 7. Segundo o tacógrafo, o cavalo mecânico FNM rodou 5.110 km em dez dias, fazendo a média de 4,28 km/l.

Que falta faz a música do motor Alfa. Esse troço vicia... (FIM)



FAMÍLIA DE ALFEIROS

Em Tombos, Minas Gerais, a caravana encontrou a família Giarola.

— Tenho quatro filhos e oito filhas, sustentei todo mundo com o Alfa. Onde o sujeito rejeitava viagem, eu ia lá e rebocava barro, areia... — conta o patriarca Zé Giarola, aos 82 anos.

De 1960 até hoje, a família já teve 14 Fenemês. Alguns estão ativos e outros repousam numa espécie de ferro-velho mantido ao lado de casa. Vaninho, Gilliard e Juanita, filhos de seu Zé, continuam a cultuar a marca.



SUAVE COM O BRUTO

O FNM é uma máquina bruta. Fez fama nos anos 50 e 60 por aturar sem reclamação cargas e estradas com que outros caminhões não conseguiam lidar. Mas é educativo ver a suavidade com que Osvaldo dirige o bicho. Uma tocada lisa, regular, ouvindo tudo o que o motor quer dizer. O FNM torna-se leve. "Caminhão precisa de refresco. Não atura desaforo", diz.



O QUARTO DO HOTEL

Hora de encostar o caminhão para o pernoite. Na cabine do FNM, a cama é estreita e só há lugar para um dormir com relativo conforto (ainda que nos anos 60 fosse oferecida a opção de um beliche). Sobra aos passageiros extras a opção de passar a noite na carroceria. Ainda bem que os Fenemês não estavam levando carga.



VELHOS HERÓIS NO CENTRO DAS ATENÇÕES

— Ainda existe caminhão Fenemê? — espantou-se um.

— Claro que existe! Esses aí são visagem por acaso? — caçoou o outro.

Era só o comboio dar uma paradinha no posto ou na beira da estrada que se formava uma roda de curiosos.

"Vão a alguma exposição?" era a pergunta mais comum. Ante à negativa, vinha a segunda questão: "Mas o motor é adaptado, né?"

E toca de responder que o motor é original. Alfa Romeo mesmo, 11 litros, seis cilindros com bloco de alumínio. Não estão ouvindo o ronco?

Nas paradas, sempre apareciam antigos alfeiros, a contar passagens épicas por atoleiros gigantes.

Na BR-116, outros caminhoneiros buzinavam. Os pedestres saudavam aos gritos. Em Feira de Santana, Bahia, um sujeito ficou a pular de euforia no acostamento. O FNM virou lenda para o povo da estrada e hoje é respeitado como um velho herói.



A SONHADA CHANCE AO VOLANTE

Miklos joga a chave na minha mão e pede:

— Vai lá buscar o cavalinho e bota na rampa para lubrificar caixa e diferencial.

Enfim vou manobrar o Fenemê! Chave no contato, arranque e "Brôooom!", o motor desperta. Solto o freio a ar ("Chuifff!") e engreno segunda marcha reduzida.

Em movimento, a direção não é tão pesada quanto imaginava. Sonoros arranhões acompanham a tentativa de engrenar a terceira. Malditos engenheiros da Alfa...

Caminhão na rampa, Miklos só faz uma reclamação:

— Alfeiro de verdade não deixa a porta bater na bunda quando sobe na cabine...



‘PASSA PRETINHO AÍ?’

Estamos em Ponto dos Volantes, município mineiro que, como o nome indica, nasceu da rodovia. Os caminhões vão encontrando lugar no posto para o pernoite. Da escuridão, surgem garotos com garrafas e trapos nas mãos.

— Passa pretinho aí?

São os meninos que dão brilho nos pneus dos caminhões, uma das muitas categorias que têm na estrada sua fonte de sustento.

Eles vagam entre carretas, conseguem esporádicos fregueses e, antes das dez da noite, desaparecem.

No amanhecer, lá vem outro guri com garrafa de pretinho. Chega e pergunta:

— Tem efe, tem ene, tem eme... É caminhão novo?

Esperto e falante, chama-se Wagner e fez 13 anos. Mora com a mãe no outro lado da estrada. O pai era mecânico, já morreu.

— Estou de férias e as aulas começam na segunda. Vou para a sétima série — conta, inflado de orgulho.

Para passar pretinho em um caminhão de três eixos, ele pede R$ 2. Vale a pena?

— Fiz R$ 50 em três dias e comprei o material escolar.

Wagner diz que só trabalha de dia, que é para não deixar nenhuma parte do pneu sem brilho. Mas e a fórmula do pretinho?

— Isso eu não conto...



DELÍCIA DE ESTRADA: arroz carreteiro para três pessoas, por Ito Bir

Ingredientes:

2 batatas picadas;

2 copos de arroz;

2 cubos de caldo

de galinha;

meio quilo de charque;

meia cebola grande;

1 dente de alho;

3 folhas de louro;

extrato de tomate

óleo de soja

Modo de preparo:

Ferver o charque picado três vezes, aproveitando a última água. Daí, misturar todos os ingredientes de uma vez só.

O resto é igual a fazer arroz comum: deixar ferver até secar, primeiro com a panela tampada e depois semi-descoberta.

Se o arroz e a batata ainda não estiverem cozidos, ir acrescentando mais água até ficarem no ponto. O tempo normal vai de 10 a 20 minutos, dependendo do fogo.

Para acompanhar, vai uma salada de cebola e repolho picados, tudo bem regado de azeite.
 

12 comentários:

AntonioCJr. disse...

Foi o post mais bacana que eu já li aqui...
Quando eu era criança, meu pai tinha um bar na rua três rios, no bom retiro, e sempre que passavam os FNMs basculantes carregados subindo a ladeira( passavam muitos), eu corria e me escondia na cozinha...ah ah ah...até que passassem. Mas eu sempre ficava olhando pela fresta do balcão para vê-los.
Eu morria de medo daquele urro todo, mas com o passar do tempo, aprendi a admirar estas máquinas...
Muito legal..parabéns!!!

Anônimo disse...

Realmente, uma viagem no tempo!
Muito bom!
Renato

Adriano Antunes disse...

Parabéns pela matéria e que ótima aventura. Quando eu era criança meus pais costumavam passar as férias em Antonina no litoral do Paraná, e lá tinha uma mina de ferro, e como você disse FNM nunca teve medo de dar duro, quem fazia o transporte eram os nobres, muitos deles em estado precário, tão comidos pela ferrugem que dava pra ver os assentos e eu tinha medo quando eles aproximavam das lombadas e soltavam aquele famoso zumbido.

Alexandre Cruvinel disse...

Só o Jason mesmo. Do mesmo jeito que tem uns caras que comem escorpiões vivos e pescam em alto mar na TV a cabo, JV viaja de Fenemês à Bahia, de Belina ao Uruguai e de Fordinhos T sei lá pra onde. Ele é o cara !

Buriti disse...

Pena que não cruzei com eles na estrada, estava em Salvador na mesma época, subindo de ilhéus, de Fusca, ia ser uma foto legal todo mundo junto, viajantes na estrada.

Luís Augusto disse...

Que bela crônica! Meu dia ficou melhor depois de tê-la lido, obrigado!

Danielle Portela disse...

oi, bom dia!
estava procurando no google por uma foto de Tombos, Mg. quando abri uma foto que tinha Alfa Romeu, por curiosidade, e acabei vendo que ao lado do Alfa estava meu Vô, Giarola e Meus Tios! achei super legal!

abraços!

Leandro Alves disse...

Muito bom o blog cara, a parte que fala do amigo Wagner em Ponto dos Volantes minha linda cidade ficou muito bom... mais na verdade o nome Ponto dos Volantes não foi por causa da Rodovia não e sim por ser o ponto de alguns volantes que circulavam por aqui na epoca do cangaço!

JESUS disse...

conheço esse garoto que passa pretinho ....de ponto dos volantes ...legal cara DEUS abençoe ...

JAQUEIRA HISTÓRICA disse...

Parabéns pela preservação, quando a Grande Onda chegar, estes serão sem a menor sobra de dúvida, os únicos veículos capazes de transportar "algo" para a humanidade, que por acaso sobreviver.Pois estão desprovidos de qualquer chips. Todos os chips serão inutilizados.
Quem viver verá.
Abraços a todos

Heberton disse...

Amigo,
você está mentindo sobre a realidade dos garotos que passam pretinho nos caminhões eles trabalham duro até a noite toda e a maioria não vão a escola, passam a noite na área do posto vendo da prostituição um sustento de algumas mulheres e o uso de drogas a realidade para começar outro dia, digo isso porque ja fui um desses garotos quando tinha doze anos hoje tenho vinte e cinco, sua trajetória é bonita e interessante com os caminhões mas vamos tirar as máscaras, se não conheçe a realidade do lugar não divulgue uma história cheia de encantos.

Att. Heberton Silva Medina

José Rezende - Mahar disse...

hEBERTON, SUA EXPERIENCIA NÃO AUTORIZA A GENERALIZAR NEM OFENDER O AUTOR DO POST!